De olho na produtividade alemã

18.03.16

Sr. Heinrich Josef Taprogge

Consultor ressalta as principais diferenças culturais entre alemães e brasileiros e como elas podem impactar nos negócios

Objetividade, dedicação à produtividade e separação clara entre questões profissionais e pessoais. Esses são alguns pontos mencionados pelo consultor alemão 
Heinrich Josef Taprogge quando questionado sobre as principais diferenças culturais entre os dois países no que diz respeito ao trabalho. 


Heinrich atende empresas alemãs e brasileiras oferecendo consultoria em Gestão e Processos e, portanto, sente o impacto das diferenças entre as duas culturas organizacionais. Abaixo, acompanhe a entrevista completa com o consultor alemão sobre esse asunto: 


AHK Paraná – Pela sua experiência, quais são as diferenças mais gritantes entre a cultura organizacional que se observa nas empresas alemãs e a cultura observada nas companhias brasileiras? 


Heinrich Josef Taprogge – Do meu ponto de vista, a separação entre “profissional” e “vida privada” é a diferença mais expressiva. Os profissionais de uma empresa alemã, quando estão no trabalho, lidam diretamente com questões profissionais e falam diretamente sobre assuntos profissionais, são adeptos do chamado “go directly to the point” e, de alguma maneira, pode-se dizer que não são tão “diplomáticos” como os brasileiros nesse sentido. Dentro da cultura de trabalho alemã, esse comportamento é normal e tem até uma conotação positiva, pois corresponde a uma comunicação efetiva. 

Já em uma cultura de trabalho brasileira, esse tipo de comportamento pode soar como desrespeitoso e, por vezes, agressivo. Os brasileiros não se sentem confortáveis com essa maneira de lidar com as questões profissionais, pois – mesmo no trabalho – se utilizam de um nível de comunicação pessoal. Na cultura de trabalho brasileira é comum criar primeiro um bom relacionamento, falando sobre assuntos pessoais, para, depois, tratar das questões profissionais. Neste contexto, os alemães se sentem desconfortáveis, pois associam tal comportamento à falta de otimização do tempo. Também dentro da cultura alemã se esperam respostas claras e objetivas: sim ou não. Na cultura brasileira de trabalho se tende a evitar este tipo de respostas diretas, usando-se muito o talvez. 
 
AHK Paraná – Como essas diferenças são capazes de impactar os negócios realizados entre alemães e brasileiros?


Heinrich Josef Taprogge – Essas diferenças podem ter um impacto significativo nos negócios, em especial, no atual contexto pelo qual estamos passando. Hoje, toda empresa tem que procurar eficiência. Eficiência gera tempo e o tempo é o valor mais precioso das empresas dentro deste panorama. Quando os colaboradores não são capazes de comunicar com clareza e de forma direita a sua opinião, a empresa perde tempo, dinheiro e até oportunidades de negócios. Hoje, a empresa mais preparada e eficiente será a que alcançará sucesso no futuro.

É importante desenvolver um pensamento dentro da cultura empresarial local de que para trabalhar juntos não é preciso desenvolver uma amizade profunda. São dois níveis de relação bem diferentes e a confusão entre eles pode fazer com que se perca competitividade. Podemos e devemos ter diferenças de opinião, o conflito pode ser bom! Graças ao conflito, uma empresa é enriquecida por diferentes pontos de vista e se os colaboradores evitam falar diretamente dificilmente existirá conflito.

AHK Paraná - Quais as principais competências que um executivo brasileiro que vai trabalhar com uma empresa alemã – ou com profissionais alemães – deve desenvolver para ser bem sucedido em seus negócios?

Heinrich Josef Taprogge – Não acho que o executivo brasileiro precise desenvolver novas competências. Ele já tem tudo o que precisa. Uma das coisas mais impressionantes no Brasil é a tolerância do povo brasileiro. Pessoas de todo o mundo, com todo o tipo de background cultural, trabalham e moram juntas de forma pacifica e bem sucedida. Isso é algo muito importante que os alemães podem aprender com os brasileiros. Agora, o que pode um brasileiro aprender com a cultura alemã? Primeiro, é importante saber que a crítica profissional não é uma crítica pessoal. Segundo: o seu colega de trabalho não precisa ser seu amigo. Terceiro: as pessoas precisam de liderança com instruções claras: sim ou não.
 
Em resumo, não precisam ser feitas mudanças muito expressivas na gestão brasileira. Os brasileiros têm tudo para alcançar os seus objetivos, talvez apenas precisem ser um pouco mais ousados e começar a quebrar alguns paradigmas culturais. Pensar que todos da empresa devem se focar no mesmo objetivo ajuda. A máxima rentabilidade e eficiência devem ser os objetivos principais. Tendo este objetivo como “foco”, de forma natural, va ir se desenvolvendo o jeito de ser mais direto.